so
montar - sussurrou para o amigo. - Em breve
poderemos ir caçar na floresta, espere e verá.
Não demorou e Bran adormeceu. No sonho estava de
novo escalando, alçando-se para o alto numa velha
torre sem janelas, forçando os dedos entre pedras
enegrecidas, com os pés lutando por um ponto de
apoio. Escalou mais alto, e mais alto ainda,
atravessando as nuvens e penetrando no céu
noturno, mas a torre continuava a erguer-se à sua
frente. Quando fez uma pausa para olhar para baixo,
sentiu a cabeça girar, entontecida, e seus dedos
escorregarem. Bran gritou e agarrou-se à vida. A
terra estava a mil milhas de seus pés, e ele não sabia
voar. Não sabia voar. Esperou até que o coração
parasse de saltar no peito, até poder respirar, e
recomeçou a escalada. Não havia caminho que não
fosse para cima. Bem alto, delineadas contra uma
lua esbranquiçada, parecia poder ver as formas de
gárgulas. Tinha os braços machucados, doendo, mas
não se atrevia a descansar. Forçou-se a subir mais
depressa. As gárgulas o observaram. Seus olhos
brilhavam vermelhos como carvões quentes num
braseiro. Talvez tivessem sido leões antes, mas agora
estavam retorcidas e grotescas. Bran conseguia ouvi-
las segredarem umas às outras em suaves vozes de
pedra, terríveis de ouvir. Não devia ouvir, disse a si
mesmo, não devia ouvir; desde que não as ouvisse,
estaria a salvo. Mas, quando as gárgulas se
libertaram da pedra e percorreram o lado da torre
até onde Bran se agarrava, compreendeu que afinal
não estava a salvo."Eu não ouvi" choramingou,
enquanto elas se aproximavam cada vez mais."Eu
não ouvi, não ouvi."
Acordou sem fôlego, perdido na escuridão, e viu uma
vasta sombra que se erguia sobre ele.
- Não ouvi - sussurrou, tremendo de medo, mas
então a sombra disse "Hodor" e acendeu a vela ao
lado da cama, e Bran suspirou de alívio.
Hodor limpou-lhe o suor com um pano morno e
úmido e o vestiu com mãos hábeis e gentis. Quando
chegou a hora, transportou-o até o Salão Grande,
onde uma longa mesa tinha sido montada perto da
fogueira. O lugar do senhor à cabeceira da mesa
estava vazio, mas Robb sentava-se à direita, com
Bran à sua frente. Naquela noite, comeram leitão,
torta de pombo e nabos nadando em manteiga, e,
para depois, o cozinheiro prometera favos de mel.
Verão abocanhava restos da mesa que Bran lhe dava,
enquanto Vento Cinzento e Cão Felpudo lutavam por
um osso num canto. Os lobos de Winterfell já não
vinham para junto da mesa. Bran achara aquilo
estranho a princípio, mas já começava a se habituar,
Yoren era o irmão negro de maior patente, e assim o
intendente fizera-o sentar-se entre Robb e Meistre
Luwin. O velho tinha um cheiro azedo, como se há
muito não tomasse banho. Rasgava a carne com os
dentes, quebrava as costeletas para sugar o tutano
dos ossos, e encolheu os ombros quando o nome
dejon Snow foi mencionado.
- A desgraça de Sor Alliser - grunhiu, e dois de seus
companheiros partilharam uma gargalhada que Bran
não compreendeu. Mas, quando Robb lhes perguntou
por notícias de seu tio Benjen, os irmãos negros
fecharam-se num silêncio agourento.
- O que está acontecendo? - Bran perguntou.
Yoren limpou os dedos em suas vestes.
- Há más notícias, senhores, uma maneira cruel de
retribuir-lhes a carne e o hidromel, mas o homem
que faz a pergunta deve aguentar a resposta. O
Stark desapareceu.
Um dos outros homens disse:
- O Velho Urso o enviou para o exterior em busca de
Waymar Royce, e ele ainda não voltou, senhor.
- Está muito atrasado - disse Yoren. - O mais certo é
que esteja morto.
- Meu tio não está morto - exclamou Robb Stark em
voz alta e num tom irritado. Ergueu-se no banco e
pousou a mão no cabo da espada. - Ouviram-me? Meu
tio não está morto! - sua voz ressoou nas paredes de
pedra, e Bran subitamente sentiu medo.
O velho e malcheiroso Yoren olhou para Robb sem se
impressionar:
- Com certeza, senhor - respondeu, e sugou os dentes
para soltar um fiapo de carne preso. O mais novo dos
irmãos negros moveu-se desconfortavelmente no
assento:
- Não há homem na Muralha que conheça a Floresta
Assombrada melhor que Benjen Stark. He
encontrará o caminho de volta.
- Bem - disse Yoren -, talvez sim, talvez não. Já
houve bons homens que entraram nesses bosques e
jamais voltaram.
Tudo em que Bran conseguiu pensar foi na história
da Velha Ama sobre os Outros e o último herói,
perseguido através dos bosques brancos por mortos e
aranhas tão grandes como cães de caça. Sentiu medo
por um momento, até se lembrar de como a história
terminava,
- Os filhos o ajudarão - Bran exclamou -, os filhos
da floresta!
Theon Greyjoy soltou um riso abafado, e Meistre
Luwin disse:
- Bran, os filhos da floresta morreram e
desapareceram há milhares de anos. Tudo o que deles
resta são as caras nas árvores.
- Aqui pode ser que seja verdade, Meistre - Yoren
respondeu -, mas lá, depois da Muralha, quem pode
dizer? Lá em cima, um homem nem sempre consegue
saber o que está vivo e o que está morto.
Naquela noite, depois dos pratos retirados, Robb
levou, ele próprio, Bran para a cama. Ve